"Quando te disse
que era da terra selvagem
do vento azul
e das praias morenas...
do arco-íris das mil cores
do sol com fruta madura
e das madrugadas serenas....
das cubatas e musseques
das palmeiras com dendém
das picadas com poeira
da mandioca e fuba também...
das mangas e fruta pinha
do vermelho do café
dos maboques e tamarindos
dos cocos, do ai u'é...
das praças no chão estendidas
com missangas de mil cores
os panos do Congo e os kimonos
os aromas, os odores...
dos chinelos no chão quente
do andar descontraído
da cerveja ao fim de tarde
com o sol adormecido...
dos merenges e do batuque
dos muquixes e dos mupungos
dos embondeiros e das gajajas
da macanha e dos maiungos.
da cana doce e do mamão
da papaia e do caju....
tu sorriste e sussurraste
"Sou da mesma terra que tu!"
In " Um beijo sem nome" do livro
VOZES DO VENTO
de Ana Paula Lavado
O entardecer,
deixava sobressair as pinceladas
com que N'Zambi ia tingindo o céu.
A natureza,
lentamente,
orvalhava-se do cacimbo...
Orvalho do cacimbo,
sangue tonificante:
do embondeiro,
das acácias,
do capim...
Do solo,
emergia o perfume da terra,
grávida de tudo...
No charco,
pequenos moluscos riscavam as águas
compassados pelo coaxar das rãs.
O batuque,
ecoava lânguido, dorido...
misturando o som
ao cheiro da pele transpirada.
As mãos,
que o tamborilavam,
eram as mesmas mãos
que. durante o dia,
incessantemente, se enchiam
das gotas de sangue dos cafezeiros.
Na sanzala,
os fogos começavam a crepitar.
As crianças,
olhavam as formas fantasmagóricas
imaginando cazumbiris...
A fuga rápida
de algum predador,
assustando-as,
aproximava-as da fogueira
que resplandecia vida,
aquecendo os corpos, extenuados,
que a circundavam.
O kissandje,
dedilhado, com frenesim,
pelos dedos cor de âmbar,
gemia a alma...
enquanto, o tocador,
cadenciava a cabeça encarapinhada.